O músico inglês Roger Waters se apresentará dia 25 de março, domingo, no estádio Beria-Rio, em Porto Alegre. Ele mostrará na capital a turnê que iniciou em 2009, como comemoração dos 40 anos do disco The Wall, de 1979, tocando o disco na íntegra e na ordem original.
The Wall é um disco duplo, conceitual, sobre guerra, problemas da infância e da educação, conflitos existenciais, vazio interior e tijolos. Podemos nos perguntar qual o sentido dos tijolos no meio de todos os outros temas. Waters nunca deu a explicação exata, mas entre todas as opções, a mais aceitável é a exposta pelo filme homônimo, dirigido por Alan Parker , estrelado por Bob Geldoff e produzido pelo próprio Waters. Como o pai do músico foi morto na segunda guerra e recebeu, como “homenagem”, uma sepultura simbólica em seu nome, em um muro, Waters estaria se utilizando de uma metáfora para dizer que seu pai deixou de ser humano para se tornar “just another brick in the wall” (apenas mais um tijolo no muro).
Além disso, os tijolos representam os problemas que enfrentamos. Dessa forma, acabamos construindo um muro ao nosso redor, que nos separa do mundo, deixando-nos isolados. No primeiro disco, o personagem fictício relembra a infância com a ausência do pai, a indiferença da mãe e as humilhações pelas quais passava na escola. Após isso, ele entra em depressão, chegando ao ponto de rejeitar uma bela mulher, destruir a casa na presença dela e se despedir do céu azul, em “Goodbye, blue sky” e do mundo, em “Goodbye, cruel world” (adeus, mundo cruel), a última faixa do primeiro disco.
Somente no segundo disco, ele percebe que já está dentro do muro e se pegunta: “is there anybody out there?” Não há resposta, as memórias da morte do pai e da guerra voltam, até ocorrer a loucura (palavra perfeita para descrever os fenômenos Floydianos) maior. Ele sonha que é um líder nazista, que está raspando todos os pelos do corpo, expulsando negros, judeus, usuários de drogas e homossexuais de um recinto. Após isso, espanca pessoas na rua e é ovacionado por seus adoradores, como um verdadeiro Fuhrer. Na faixa “Stop”, o personagem volta a ter certa lucidez e pede para que tudo pare. Mas não adianta.
Em The Trial (o julgamento), penúltima faixa, ocorre o desfecho da história: “There must have been a door there in the wall when I came in” (tinha que haver uma uma porta lá no muro quando eu entrei). Mas o muro foi contruído pelo próprio prisioneiro narrador e não há mais saída. Dessa forma melancólica, Waters nos tira qualquer esperança de salvação, mas faz questão de nos lembrar, na última faixa, Outside the Wall, que ainda há vida lá fora, apesar de não podermos mais participar dela. Arrependido de ter se fechado para o mundo, o persongem tem seu trágico fim.
É essa história genial, obscura e arrebatadora que faz de The Wall um dos maiores discos da história do Rock’n Roll e um dos marcos da contemporaneidade.
sábado, 24 de março de 2012
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
O amor de Jules (uma reflexão sobre o amor)
Já
faz um bom tempo que minha pretensiosa, perturbada e questionadora mente pensa
a respeito do mais complexo dos sentimentos. Depois de concluir que “não vai
haver amor nesse mundo nunca mais” (dá-lhe Marceleza), passei a tentar compreender
primeiro o que é o amor, para, finalmente, buscar compreender porque ele não
existe mais. (É preciso deixar claro que o amor aqui discutido é o que
supostamente ocorre entre casais de namorados, etc. Excluí-se, então,
obviamente, o que acontece de pai para filho, de neto para avó, entre amigos,
etc.)
Assistindo
ao filme “Jules et Jim” (Jules e Jim – Uma mulher para dois, François Truffaut,
França, 1962), encontrei um verdadeiro exemplo de amor, no sentido mais puro,
verdadeiro e sincero da palavra; Jules, interpretado de forma simples, porém
intensa, pelo ator Oskar Werner. Vale lembrar que esse amor ocorre apenas na
ficção, o que não tira dele o título de “amor verdadeiro”
O filme:
a belíssima e cativante Catherine (Jeanne Moreau) casa-se com Jules, que traz
seu amigo de infância, Jim, para morar com ele e com sua esposa. Recém casados,
já fazem um filho, que nasce enquanto a dupla de amigos está lutando na guerra.
A mulher cria a filha sozinha, enquanto troca cartas apaixonadas com seu amado.
Quando voltam do combate, a esposa passa a distanciar-se cada vez mais de
Jules, confidenciando a Jim que seu marido voltara muito mudado da guerra.
Jules, na verdade, venerava cada vez mais sua esposa. Jim e Catherine ficam
cada vez mais próximos e íntimos, até que ela resolve trocar de par. Enquanto
Jules brinca com a filha, sua esposa transa com seu grande amigo, na mesma
casa.
A
partir daqui, o filme deixa de ser simplesmente um roteiro bem feito filmado
por um diretor competente, para entrar para a história como um dos maiores
filmes já produzidos. A genialidade e grandiosidade de um, à época, jovem
cineasta. Truffaut nos tira do lugar comum e comprova a frase de apresentação
do DVD: “O melhor filme já feito sobre o amor”. Podemos pensar que Jules vai
matar os dois traidores (não chamaremos mais assim), que ele vai embora
revoltado ou que vai brigar e infernizar a vida dos dois. Nada disso ocorre.
Ele segue amando, admirando e venerando sua deusa, além de respeitar a decisão
dela. Isso é amor. Em uma conversa franca, Jim acusa Jules de tratar Catherine
como uma rainha. A resposta vem com um sorriso puro, através de uma voz
tranquila: “mas ela é uma rainha”.
Se
observarmos com um olhar desatento, podemos considerar a obra uma “putaria” ou
até mesmo a classificarmos como um simples triângulo amoroso. Mas não é assim,
milhões de vezes, NÃO.
Quem
ama de verdade não precisa provar, pode viver tranquilo, desde que seu(sua)
amado(a) esteja feliz e em paz. O Jules amava, de fato. Aceitou ser trocado,
pois percebeu que, no momento, Catherine achou que ele não era a melhor opção
para ela. Além disso, serviu de amigo e conselheiro, quando Jim fugiu sem
deixar notícias. Ele teve chance de transar com ela na ausência do amigo, mas
não o fez, visto que sempre respeitou, a cima de tudo, seu verdadeiro amor.
Quem
ama, cuida, protege, suporta, dá carinho, faz rir. E só. Não questiona, não
prende, não expõe, não mente, não oculta. E digo mais: o amor verdadeiro é
traído, mas aceita. Enquanto o lugar comum chama de corno, eu chamo de amor
inabalável, simplesmente amor. Se for diferente disso, não é amor.
Se
eu sinto ciúmes, o sentimento ridículo é meu e eu tenho que dar um jeito nele.
A pessoa que está comigo não tem culpa nenhuma e nem precisa ficar sabendo. Ter
ciúmes deveria deixar a pessoa envergonhada.
Após
compreender o que é amor, a mais nova conclusão é que ele não passa de um
horizonte inalcançável, um delírio daqueles que só a mente humana mais doentia
pode acreditar.
O fato de o verdadeiro amor ser inalcançável para a
mesquinhez humana não redime os outros sentimentos menores, elevando-os ao
status de amor. Assista “Jules
e Jim” e cuide-se, por favor, para não cair no lugar comum.
"Não vai haver amor nesse mundo nunca mais."
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Rodoviária cheia no Natal
Rodoviária cheia no Natal. As famílias vão se reunir para celebrar o nascimento de Cristo. Elas vão discutir o sentido dessa data e tentar entender por que Jesus veio para a Terra.
É um dia em que as pessoas felizes costumam ficar mais realizadas. E também é quando as pessoas infelizes se sentem menos contentes ainda, visto que a alegria e a satisfação está em todos os lugares, menos nelas. Está nas decorações, na televisão, no shopping. Nem mesmo o velho muro escapa da festa da alegria e da esperança. Ele está brilhando com luzinhas de cores variadas que piscam de forma repetitiva e parecem dizer: “Eu sou feliz, eu estou em celebração. Quem não está no clima é antiquado. Eu sou feliz, eu estou em celebração. Quem não está no clima é antiquado. Eu sou feliz, eu estou em celebração. Quem não está no clima é antiquado.”
A magia natalina enche o coração das pessoas normais de falsa esperança. O Papai Noel é a figura mais ridícula da história. “Então é natal, a festa cristã.” O que eu menos vejo no mês de Dezembro é uma celebração a Jesus. Vejo compras, viagens, brigas nas filas das lojas, pessoas trabalhando como bichos para fazerem com que a roda siga girando.
Funciona assim: quem diz que gosta do Natal, gosta por lembranças da infância ou da juventude, “quando tudo era muito mais fácil”. Ou diz que gosta com a desculpa de que só consegue reunir a família no fim do ano, Além disso, é impossível a filhinha de papai que ganha todos os presentes desejados não gostar de natal. Mas é bom lembrar que se ela fosse presenteada, todos os anos, no dia da árvore, ela esperaria ansiosa pelo 21 de Setembro, não pelo 24 de Dezembro. Eu fico imaginando como seria uma espécie de presépio do dia da árovre. Impossível, meus queridos? Eu não duvidaria. Se ninguém fala sobre o porquê do dia 25, por que não poderia mudar a data? Mas deixa para lá, esse não é o foco.
Quem não vê sentido nisso tudo, acaba se deixando levar pela moda e pelo clima, O mais legal é ver um ateu desejando feliz natal e comprando presente. Seria como um COLORADO comemorando o aniversário do grêmio. Deseja feliz nascimento de Cristo, cumpre todo o ritual, mas não acredita na existência, muito menos no poder dele.
Eu entendo o sentido no natal, não concordo com as práticas que o envolvem hoje em dia, mas adoro a troca de presentes, a comilança, a família reunida. Acabo agindo como todos. E isso me deixa profundamente decepcionado comigo mesmo. Mas ao mesmo tempo, feliz.
Mas não adianta. Não parei de pensar sobre a troca do nascimento de Cristo, pelo dia da árvore.
O que importa é a reunião da família, a comida, a bebida, a meta, a comissão mais alta e, é claro, a troca de presentes.
É um dia em que as pessoas felizes costumam ficar mais realizadas. E também é quando as pessoas infelizes se sentem menos contentes ainda, visto que a alegria e a satisfação está em todos os lugares, menos nelas. Está nas decorações, na televisão, no shopping. Nem mesmo o velho muro escapa da festa da alegria e da esperança. Ele está brilhando com luzinhas de cores variadas que piscam de forma repetitiva e parecem dizer: “Eu sou feliz, eu estou em celebração. Quem não está no clima é antiquado. Eu sou feliz, eu estou em celebração. Quem não está no clima é antiquado. Eu sou feliz, eu estou em celebração. Quem não está no clima é antiquado.”
A magia natalina enche o coração das pessoas normais de falsa esperança. O Papai Noel é a figura mais ridícula da história. “Então é natal, a festa cristã.” O que eu menos vejo no mês de Dezembro é uma celebração a Jesus. Vejo compras, viagens, brigas nas filas das lojas, pessoas trabalhando como bichos para fazerem com que a roda siga girando.
Funciona assim: quem diz que gosta do Natal, gosta por lembranças da infância ou da juventude, “quando tudo era muito mais fácil”. Ou diz que gosta com a desculpa de que só consegue reunir a família no fim do ano, Além disso, é impossível a filhinha de papai que ganha todos os presentes desejados não gostar de natal. Mas é bom lembrar que se ela fosse presenteada, todos os anos, no dia da árvore, ela esperaria ansiosa pelo 21 de Setembro, não pelo 24 de Dezembro. Eu fico imaginando como seria uma espécie de presépio do dia da árovre. Impossível, meus queridos? Eu não duvidaria. Se ninguém fala sobre o porquê do dia 25, por que não poderia mudar a data? Mas deixa para lá, esse não é o foco.
Quem não vê sentido nisso tudo, acaba se deixando levar pela moda e pelo clima, O mais legal é ver um ateu desejando feliz natal e comprando presente. Seria como um COLORADO comemorando o aniversário do grêmio. Deseja feliz nascimento de Cristo, cumpre todo o ritual, mas não acredita na existência, muito menos no poder dele.
Eu entendo o sentido no natal, não concordo com as práticas que o envolvem hoje em dia, mas adoro a troca de presentes, a comilança, a família reunida. Acabo agindo como todos. E isso me deixa profundamente decepcionado comigo mesmo. Mas ao mesmo tempo, feliz.
Mas não adianta. Não parei de pensar sobre a troca do nascimento de Cristo, pelo dia da árvore.
O que importa é a reunião da família, a comida, a bebida, a meta, a comissão mais alta e, é claro, a troca de presentes.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
As pessoas
As PESSOAS vivem fazendo
grandes planos para o futuro e esquecem do passado.
As PESSOAS mudam de filme
preferido todos os anos.
As PESSOAS preferem as
músicas de sua época.
As
PESSOAS vão ao show da Paula Fernandes.
As
PESSOAS ficam horas na fila para ver o Justin Bieber fazer playback.
As
PESSOAS odeiam a Geni, jogam bosta nela, a bajulam quando precisam dela e
depois votam a jogar bosta, sem nenhuma gratidão.
As
PESSOAS não sabem valorizar os feitos umas das outras. Não existem méritos,
somente obrigações.
As
PESSOAS são falsas, falam pelas costas ou são sinceras demais, ao ponto de
falar xingando e gritando a todo o momento e de não aceitar as opiniões
diferentes das suas.
As
PESSOAS fazem festa, conversam entre si, trocam telefones e conhecem alguém
novo a cada fim de semana.
As PESSOAS
lutam pelo poder, se transformam em poderosos de coisa nenhuma e depois passam
a pensar que são donas do mundo e que todos os outros estão na Terra às suas
ordens.
As
PESSOAS bonitas e ricas se julgam deusas intocáveis, absolutas.
As
PESSOAS pobres têm pena de si mesmo, não fazem nada para mudar e colocam a
culpa em Deus ou na Dilma.
As
PESSOAS acabam o ensino médio e vão para a faculdade com 17 anos, sem pensar
porque nem para que. Simplesmente porque a mãe mandou ou porque o filho do
amigo do pai disse que é legal.
As PESSOAS torcem
pelo time do pai e torcem contra o rival do time do pai, só por um costume
imbecil, uma cultura débil mental.
As PESSOAS
não estudam na escola porque é feio ser CDF.
As PESSOAS,
quando estudam, o fazem para entrar na faculdade, no curso que o pai mandou.
As PESSOAS
são medíocres, mesquinhas.
As PESSOAS
usam calça justa quando a moda determina.
As PESSOAS
escutam rock porque usam all star ou usam all star porque escutam rock?
As PESSOAS
baixam a discografia completa e nem se preocupam em saber o ano, o contexto do
disco. O que estava acontecendo com o artista, porque ele disse aquilo?
As PESSOAS
não têm mais ídolos e, quando tem, não são seus, mas de uma maioria, que é
direcionada por um sistema selvagem, frio, sem sentido e decepcionante. Aliás,
cadê o Luan Santana?
As PESSOAS
assistem futebol bebendo e criticando aquele jogador que já fez muito pelo time.
As PESSOAS
não respeitam, gritam, são autoritárias, humilham umas as outras sem piedade,
“pisam na cabeça” em troca de fama e dinheiro.
As PESSOAS
ligam a televisão e acreditam em tudo que ouvem.
As PESSOAS compram
em dez vezes.
As PESSOAS
matam por um boné.
As PESSOAS
recebem as passagens antecipadas no novo emprego e preferem sumir com os 40
reais a tentar fazer uma carreira.
As PESSOAS
transam em troca de um vale transporte.
As PESSOAS
preferem não ter dentes a cuidar deles.
As PESSOAS
dormem suadas.
As PESSOAS
preferem filmes com informações prontas a filmes que exigem raciocínio para
compreensão.
As PESSOAS
esperam um fim nos filmes, estilo novela das oito. O fulaninho acabou com a fulaninha,
a vilã morreu em uma explosão.
As PESSOAS
preferem trabalhar a estudar.
As PESSOAS
votam no candidato mais bonito, no que fala melhor, no que aparece mais no
Jornal Nacional, no que a Fátima Bernardes entrevista. Usam todos os critérios,
menos o certo.
“Não quero
ser como vocês, eu não preciso mais”.
PESSOAS me
provocam nojo, medo, raiva, revolta, pena e desprezo. Eu sou um animal, um
animal contido, ou seja, um neurótico. Um louco, por opção lúcida e consciente,
com muito orgulho e prazer. E sem vergonha de dizer.
“Se o mundo
é, mesmo, parecido com o que vejo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito”.
Pensar?
O
melhor momento da vida é aquele em que, ao invés de pensar, simplesmente
vivemos. A vida é construída por detalhes precisos, situações inesperadas.
Quando esperamos demais por algo, a perspectiva certamente não será
correspondida e ocorrerá a tradicional e recorrente decepção.
Quando
aquilo que era esperado finalmente acontecer, não conseguiremos aproveitar, uma
vez que estaremos preocupados em saber
se o ocorrido está correspondendo as expectativas.
Mas
por que dez minutos fazendo coisas ruins parecem durar mais que dez horas
realizando atividades agradáveis? Porque nos doamos de todo o coração e alma
aos prazeres. Todo o nosso ser está dedicado aquele momento. Quando estamos
fazendo algo que nos desagrada, nosso corpo está presente, mas o nosso coração
estará aqui, a alma, ali, e os pensamentos racionas, acolá. Nessa divisão de
funções está o segredo disso que tanto me incomoda; o tempo.
Tempo
de colher, tempo de plantar, etc. Muita coisa que eu plantei, foi colhida por
outras pessoas. Então essa experiênica negativa faz com que eu queira colher
antes, para não arriscar de perder minha recompensa.
De
nada adiantará viver cuidando da saúde se o restante ficar de lado. A
felicidade não se compra, se conquista. Apesar de ser impossível a vida ser pefeita,
ou até mesmo boa, cabe a nós transformá-la em menos ruim possível. É a velha
história do inferno com um canto à prova de fogo.
Não
busquemos o prazer, mas fujamos, desesperadamente, da dor.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Os dois 'eus'
Eu sou dois e, ao mesmo tempo, não sou ninguém. Exatamente por isso que eu (não sei qual dos dois que está escrevendo) sou tão louco.
O suposto primeiro “eu”:
Este quer viver na cidade pequena, com o mínimo de luxo possível, se alimentando com qualidade, praticando esportes. Esse Lucas escuta músicas tradicionalistas, MPB e blues, não se importa com o que os outros pensam a respeito de suas roupas velhas e fora de moda. Ele vive feliz, assistindo aos jogos do brasileirão, sabendo as escalações de todos os times, Ele nunca irá ao estádio ver os jogos do seu time, pois é muito perigoso. Os estádios estão cada vez mais violentos, além disso, ele precisa guardar dinheiro para a velhice. A sua saúde e seu futuro o preocupam muito. Não pensa em estudar, uma vez que seu grande herói de adolescência, o Mr. Pi, chegou ao sucesso sem ter diploma. Ele também é muito fã do Pink Floyd (nesse ponto os dois Lucas combinam) e o refrão de Another Brick in the Wall II é bem direto: “Não precisamos de nenhuma educação”. Portando, faculdade para que? Não precisava nem ter feito ensino médio.
Os lugares cheios o incomodam e o olhar crítico de uma pessoa o deixa vermelho.
Ele terá uma velhice saudável ao lado de sua esposa, a única namorada que teve na vida. Eles se conheceram em uma das tardes de verão que Lucas passa com a família no Balneário Bela Vista, em Cachoeira do Sul. Ela não tem nenhum tipo de beleza física, mas a simplicidade e a humildade são o que importa.
Ele gosta de política, a revolução francesa o fascina, acha que tudo está errado, mas seu egoísmo e individualismo não o permitem lutar por nada, só por ele mesmo. Não vale a pena deixar de assistir a estréia do Internacional na Copa Sul-americana, ao vivo na RBSTV, para ir reivindicar na reunião do sindicato dos correios. Passou no concurso logo após seu aniversário de 23 anos, está prestes a se aposentar e nunca vira tamanha mobilização de sua classe na luta por aumento salarial. Ele é totalmente contra a greve, mas não diz isso aos colegas e sempre que eles decidem pela paralisação, ele adere de forma obediente.
Sua rotina é acordar às 6h45, ler os jornais, tomar café com bolo de milho e pão caseiro e ir para o trabalho no carro que comprou no segundo ano de trabalho. Vai para casa almoçar a sobra da janta, assiste ao Globo Esporte espalitando os dentes enquanto a esposa lava a louça. Os dois se perguntam, se lamentando: “Por que nosso filho saiu de casa, se ele tinha tudo aqui, casa, comida e roupa lavada?” Lucas volta ao trabalho às 13h30min, retorna às 18h30min, toma banho, faz uma roda de chimarrão com os amigos de infância, que ainda são seus vizinhos, e janta, pontualmente, às 20h15min. Comer tarde prejudica a digestão.
Nos finais de semana, liga para seu filho, que está em Santa Maria fazendo cursinho para tentar entrar na faculdade de Direito. O pai faz questão de relembrar ao filho de todos os conselhos: “não abra a porta para estranhos”, “não experimente drogas, pois poderá ficar viciado”, “coma frutas”, “não beba”, “não coma fast-food” e o principal; “estude, pois estudo é a única coisa que ninguém tira da gente”. Joga futebol sábado à tarde e, depois, assiste a um jogo da série B do brasileirão observando a esposa preparar a janta especial de sábado.
Lucas era feliz, até pouco tempo, pois nunca esperou muito da vida, mas nos últimos anos anda decepcionado com o aumento da violência, com o fato de seu filho ter ido embora sem nenhuma explicação e, principalmente, porque tem observado que as famílias de hoje em dia não são mais unidas, não comemoram o Natal com toalhas vermelhas nas mesas nem se preocupam em almoçarem juntas no domingo.
Esse primeiro Lucas terá um velório e um caixão de luxo, pois guardou dinheiro a vida toda para isso.
O suposto primeiro “eu”:
Este quer viver na cidade pequena, com o mínimo de luxo possível, se alimentando com qualidade, praticando esportes. Esse Lucas escuta músicas tradicionalistas, MPB e blues, não se importa com o que os outros pensam a respeito de suas roupas velhas e fora de moda. Ele vive feliz, assistindo aos jogos do brasileirão, sabendo as escalações de todos os times, Ele nunca irá ao estádio ver os jogos do seu time, pois é muito perigoso. Os estádios estão cada vez mais violentos, além disso, ele precisa guardar dinheiro para a velhice. A sua saúde e seu futuro o preocupam muito. Não pensa em estudar, uma vez que seu grande herói de adolescência, o Mr. Pi, chegou ao sucesso sem ter diploma. Ele também é muito fã do Pink Floyd (nesse ponto os dois Lucas combinam) e o refrão de Another Brick in the Wall II é bem direto: “Não precisamos de nenhuma educação”. Portando, faculdade para que? Não precisava nem ter feito ensino médio.
Os lugares cheios o incomodam e o olhar crítico de uma pessoa o deixa vermelho.
Ele terá uma velhice saudável ao lado de sua esposa, a única namorada que teve na vida. Eles se conheceram em uma das tardes de verão que Lucas passa com a família no Balneário Bela Vista, em Cachoeira do Sul. Ela não tem nenhum tipo de beleza física, mas a simplicidade e a humildade são o que importa.
Ele gosta de política, a revolução francesa o fascina, acha que tudo está errado, mas seu egoísmo e individualismo não o permitem lutar por nada, só por ele mesmo. Não vale a pena deixar de assistir a estréia do Internacional na Copa Sul-americana, ao vivo na RBSTV, para ir reivindicar na reunião do sindicato dos correios. Passou no concurso logo após seu aniversário de 23 anos, está prestes a se aposentar e nunca vira tamanha mobilização de sua classe na luta por aumento salarial. Ele é totalmente contra a greve, mas não diz isso aos colegas e sempre que eles decidem pela paralisação, ele adere de forma obediente.
Sua rotina é acordar às 6h45, ler os jornais, tomar café com bolo de milho e pão caseiro e ir para o trabalho no carro que comprou no segundo ano de trabalho. Vai para casa almoçar a sobra da janta, assiste ao Globo Esporte espalitando os dentes enquanto a esposa lava a louça. Os dois se perguntam, se lamentando: “Por que nosso filho saiu de casa, se ele tinha tudo aqui, casa, comida e roupa lavada?” Lucas volta ao trabalho às 13h30min, retorna às 18h30min, toma banho, faz uma roda de chimarrão com os amigos de infância, que ainda são seus vizinhos, e janta, pontualmente, às 20h15min. Comer tarde prejudica a digestão.
Nos finais de semana, liga para seu filho, que está em Santa Maria fazendo cursinho para tentar entrar na faculdade de Direito. O pai faz questão de relembrar ao filho de todos os conselhos: “não abra a porta para estranhos”, “não experimente drogas, pois poderá ficar viciado”, “coma frutas”, “não beba”, “não coma fast-food” e o principal; “estude, pois estudo é a única coisa que ninguém tira da gente”. Joga futebol sábado à tarde e, depois, assiste a um jogo da série B do brasileirão observando a esposa preparar a janta especial de sábado.
Lucas era feliz, até pouco tempo, pois nunca esperou muito da vida, mas nos últimos anos anda decepcionado com o aumento da violência, com o fato de seu filho ter ido embora sem nenhuma explicação e, principalmente, porque tem observado que as famílias de hoje em dia não são mais unidas, não comemoram o Natal com toalhas vermelhas nas mesas nem se preocupam em almoçarem juntas no domingo.
Esse primeiro Lucas terá um velório e um caixão de luxo, pois guardou dinheiro a vida toda para isso.
sábado, 9 de julho de 2011
O pessimismo aplicado ao cotidiano
Quando falamos em pessimismo, imaginamos aquela pessoa idosa que reclama da vida o tempo todo e que responde a todas as perguntas com aquele seco “tanto faz” ou aquele ser que acha que tudo vai dar errado antes de tentar.
O primeiro caso, na verdade, trata-se de uma pessoa que descobriu a realidade da vida, que sabe que ela é uma breve passagem. Essa pessoa já percebeu que tudo que ela esperava da vida não aconteceu e jamais acontecerá, com ninguém. Como escreveu o grande Arthur Schopenhauer: “conhecemos a vida primeiro pela poesia e depois pela realidade”. O gênio também escreveu: “para o jovem o verdadeiro mundo é encoberto ou destorcido por uma ilusão, composta de caprichos pessoais, preconceitos herdados e fantasias estranhas”. Os caprichos pessoais são totalmente varridos pela vida, que por mais que seja boa, acaba com qualquer sonho de perfeição que sempre temos quando jovens. Será hipócrita quem disser que, quando tinha seus 12 ou 13 anos, não imaginava aquela história da novela, do filme, como sua própria vida; aí estão as fantasias estranhas, das quais Schopenhauer nos fala. Os preconceitos herdados são aqueles que consideraram o realista, um pessimista que quer que você se dê mal. Quando o pai aconselha o filho a não confiar em ninguém, a não emprestar um brinquedo, o filho pensa que o pai está sendo um pessimista, mas na verdade ele é simplesmente realista.
Voltando ao início, o primeiro caso está explicitado; aquela pessoa idosa mal humorada tem esse comportamento por saber que tudo é quimérico. Aqui também entra o pensamento do poeta russo, Anwari Soheili: “Se perderes a posse de um mundo, não sofras, não é nada; se conquistares a posse de um mundo, não te alegres, não é nada. Passam as dores, passam os contentamentos, passas tu ao largo do mundo, não é nada”. Nessa frase está o resumo de tudo, apesar de a base da teoria ser o pensamento schopenhauriano.
A vida é totalmente decepcionante, se esperarmos qualquer coisa dela. Até mesmo para quem espera muito pouco, ela o será, porque esse quase nada que é esperado, dificilmente virá. E mesmo que ele venha, não saciará a maldita sensação de satisfação. Sigo me embasando no gênio: “erra muito menos quem, com olhar sombrio, considera esse mundo como uma espécie de inferno e, portanto, só se preocupa em conseguir um recanto à prova de fogo.”
Ele nos disse: “Todo prazer é apenas a cessação de uma necessidade”. Que prazer é esse que tanto buscamos? Se ele tem como único intuito cessar uma necessidade, não deveríamos objetivar a não necessidade? Eis o paradoxo da teoria; prazer é acabar com a necessidade? Necessidade de ter prazer? Eles são totalmente dependentes um do outro.
O segundo caso, citado no início, da pessoa que acha que tudo sempre vai dar errado, é o pessimismo no qual me encaixo no momento. Aquele que busca o não sofrimento, que não espera nada da vida, que já sabe que a dor é real, mas o prazer é falso, desprezível, breve e decepcionante. Aqui entra a máxima de Voltaire: “A felicidade é apenas um sonho, a dor, sim, é real”. Schopenhauer nos explica e legitima esse pensamento: “quando nosso corpo inteiro se encontra saudável e intacto, mas apresenta uma pequena parte sofrida ou dolorida, então a consciência deixa de perceber a saúde geral para dirigir sua atenção constantemente para a dor da parte ferida e a sensação de bem-estar é anulada por completo”. Nesse caso, está comprovado.
Alguém quando machuca um dedinho da mão fica dando graças a Deus por ter outros dezenove dedos sem dor? Não. A realidade é o dedo doendo. Assim como quando temos vários objetivos e sonhos para a nossa vida. Vamos supor que seu desejo de juventude for ter sempre muitos amigos, trabalhar com o que se identifica, ser reconhecido profissionalmente, pegar todas (os) as (os) mulheres (homens) que quiser ou encontrar uma (um) boa (bom) mãe (pai) para seus filhos, manter contato com seus pais, ter dinheiro para comprar tudo que desejar; casa própria no bairro tão sonhado, o carro do ano, roupas boas. Se com 40 anos, você tiver tudo isso, menos um item, você vai passar mais tempo pensando em tudo que tem ou naquele único que não tem? Não seja hipócrita. A consciência dirigirá sua atenção para aquilo que não você não tem. Somente isso será real e o restante, que deveria te fazer feliz, será ilusão.
Apesar de me considerar um pessimista, agora que já está explicado o tipo de pessimismo, acho que sou feliz, exatamente por não viver pensando em ser.
O importante é viver, viver, viver.
E nunca me pergunte: “Qual são seus planos para o futuro?” Aliás, não pergunte isso a ninguém, uma vez que o futuro de uma pessoa nunca será conforme planejado e esse plano, essa vontade de escolher, esse desespero por decidir, esse anseio por querer ser senhor do próprio destino são as maiores tolices que um ser humano pode cometer e as únicas causas da recorrente tristeza.
A vida não é decepcionante?
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